quarta-feira, junho 28, 2006

FUTEBOL: FILOSOFIA DA HISTÓRIA

O que esta Copa está demonstrando, de modo lúgubre, é que o futebol enquanto entretenimento - pelo menos numa torneio mundial de seleções - acabou. O canto do cisne foi mesmo a Copa de 82, a última vez em que um time fascinante pintou e bordou. Vejamos agora, em 2006. A Argentina apresentou um lampejo, e voltou a vaca fria. A Espanha, idem. O resto foi o futebol de resultados, cuja quinta-essência e idéia platônica é a Itália. Pelo jeitão das coisas, todos para lá caminhamos. Não digo que a coisa não tenha o seu intesse - prevalece mais do que nunca o frenesi competitivo, e embriaguez do triunfo ofusca tudo o resto. Mas, quem gostava de ver o útil unido ao agradável, vai passar o resto da vida chupando o dedo. Não quer dizer que não existam mais grandes craques - só que, nas seleções, eles embotam o respectivo talento em nome do «coletivo». É uma espécie de «realismo socialista» em todo o seu esplendor. Basta ver o grotesco jogo de ontem, com o Brasil (1º mundo no futebol, com muito menos posse de bola do que Gana - 3ºmundo no futebol - e fazendo gol só de contra-ataque, com Dida acabando a partida como o melhor jogador em campo). Daí que Ronaldinho Gaúcho - 2 vezes melhor do mundo e oriundo de uma época assombrosa - não acerte um passe nem um drible. Claro que eu gosto de ganhar. Mas se o Brasil for hexa jogando assim, onde estará a graça? Fomos tetra jogando assim, e penta jogando assim. E depois outra vez, e mais outra? O problema do pragmatismo dogmático é que ele degenera sempre em monotonia.

13 Comentários:

Às qua jun 28, 09:54:00 AM , Blogger Sérgio Ruiz disse...

Paulão, meu caro, assistimos até agora apenas ao primeiro ato. Eu achei bastante promissor -- belíssimos gols e boas partidas. A coisa tende a melhorar. Agora o Mundial começa de verdade, com as melhores quartas de finais da história, contando com a presença de seis campeões mundiais. Essa história de que o futebol-arte foi enterrado em 82 é pura balela. Nem em 58, com Pelé e Garrincha novinhos em folha, o Brasil deu show em todas as partidas. Lembre-se que vencemos o País de Gales, essa potência futebolística, com um mísero golzinho. Em 62, não fosse a garfada sobre a Espanha, a seleção canarinho teria amargado um vexame histórico. Na Copa de 70, até gênios como Tostão isolaram a bola para as arquibancadas, num estilo parecido ao do Roberto Carlos.
Concordo com o Parreira: vc e muita gente discutem um futebol que nunca existiu, um futebol idealizado, composto apenas de melhores momentos. Daqui a vinte anos, um desavisado que olhar um compacto das boas jogadas do Brasil contra Gana vai ficar com a impressão de que a seleção foi um espetáculo.
Sobre o momento atual do Brasil, acho bastante animador o fato de que, mesmo jogando mal, o time despachou facilmente uma perigosa zebra africana. É engraçada a crônica futebolística. A cada rodada, ela se apaixona por um time -- e quebra a cara em seguida. Já apostaram em Espanha, Argentina, Itália e até na República Checa, que perdeu o rumo depois de tomar um sapeca de Gana, vejam só. Agora, por absoluta falta de alternativas, estão idolatrando a Alemanha, cujo único mérito, a meu ver, tem sido o de jogar menos pior do que se esperava. De tudo o que eu vi até agora -- e não foi pouco --, posso dizer tranqüilamente que o Brasil é o melhor, mesmo ainda a 50% de sua força.
De todas as equipes ainda na disputa, o Brasil é claramente o único que tem ainda um enorme pontencial a ser desenvolvido nas próximas três partidas. Não concordo também que o Gaúcho seja uma completa decepção. Ele tem sido entre razoável e bom. E pode decidir nas últimas três partidas. Se fizer isso, ninguém vai lembrar do que ele fez nos quatro primeiros jogos da Copa.

 
Às qua jun 28, 11:21:00 AM , Blogger Jorge Cordeiro disse...

concordo plenamente com vc, Paulo. VEncer por vencer nao tem a menor graça. Seja no futebol, no basquete ou na Fórmula 1. Por essas e outras os Jogos Olímpicos, pra mim, têm mais graça...

 
Às qua jun 28, 11:30:00 AM , Blogger Sérgio Ruiz disse...

Jorge, eu sou da geração Sarriá, meu velho. Já perdi uma dando show. Foi o suficiente.

 
Às qua jun 28, 12:50:00 PM , Blogger Jorge Cordeiro disse...

Ter um time de estrelas e jogar como a Suíça é de fuder... Ou o Parreira ou é burro ou incompetente...

 
Às qua jun 28, 12:57:00 PM , Blogger Jorge Cordeiro disse...

E sérgio, tambem sou da geração Sarriá, mas confesso que tenho mais boas lembranças daquela Copa do que da de 94 por exemplo. Gosto de futebol, não apenas de títulos. Um time como esse do Brasil não pode se contentar em ser eficiente como um burocrata... é muito desperdício de talento...

 
Às qua jun 28, 02:35:00 PM , Blogger Marcelo Tescaro disse...

Concordo com o Sérgio, em gênero, número e grau. Basta ver por duas horas (é:duas horas) os çabios do sportv e editar os melhores momentos, compará-los com os do jogo e perceber que quem está devendo show não é bem a seleção. TODOS, absolotamente TODOS analistas esqueceram de fazer o mea culpa com o Ronaldo, e estão em busca de carniça fresca. Aliás, Sérgio, a queridinha da vez deve ser, para não haver desperdício, a França. Pois não? Ô raça...

 
Às qua jun 28, 02:43:00 PM , Blogger Paulo Nogueira disse...

Serjão, vou vc pirou de vez e está babando na gravata, ou então não entendo os seus parãmetros. Até o Parreira já reconheceu que o Gaúcho está jogando pedrinha - é óbvio ululante. Não digo que de repente ele não possa arrebentar - aliás, torço para isso, e o mesmo vale para o Ronalducho. Nunca torcerei contra o Brasil só para ter razão. Mas o buraco é mais embaixo: depois de um mês de concentração e treinamento nas mãos do Parreira, não é apenas o fato de o time bater cabeça - é a ausência constrangedora de organização, de padrão de jogo, de jogadas ensaiadas, de triângulações. Tudo se passa como se aqueles craques nunca tivessem jogado junto, tal o desentrosamento. As brechas na defesa são verdadeiras crateras - até quando vamos depender do pé torto ou da falta de pontaria dos adversários? Não há ofensivas sistemáticas pelas alas, e os nossos meias se limitam a cercar os adversários. Claro que o Parreira não tem culpa pelo patológico apagão do Gaúcho - nem pelo fato de o Ronaldo, que na Copa anterior pesava 82 quilos, ter se apresentado com 95 (engordou 3 quilos por ano!). Mas tem culpa ao escalar o Cafu, por exemplo, porque «ele tem um recorde para bater». Ora, o recorde que vá tomar no cu de rodinha! Tomara que o regresso do Robinho ajude a endireitar essa lambança.

 
Às qua jun 28, 07:08:00 PM , Blogger Ricardo Ferraz disse...

Paulão,

São duas coisas diferentes: essa equipe do Parreira tem problemas porque ele é teimoso como uma porta. O Brasil inteiro sabe que o time que jogou contra o Japão é a melhor equipe até agora, mas... sabe-se lá porque ele não escala a galera. Este time é disparado o melhor da Copa. Não tem para ninguém. Se entrar em campo, só não fatura a taça por casuísmos do futebol. Mas se der a lógica é Brasil na cabeça.

Quanto à beleza do futebol de antigamente, so sorry baby, os tempos mudaram. Para melhor. O futebol de hoje é mais técnico que o de antigamente. Os times são mais disciplinados, tem toque de bola mais refinado e mais competitividade. Os jogos do Brasil em 70 são lindos porque a seleção tinha um nível técnico inigualável, mas se vc pegar os jogos da Itália e da Inglaterra, vai ver que eram um bando de pernas de pau dando chutão apra frente. Não tínhamos adversário à altura.

Atualmente, com o futebol mais nivelado, a gente ainda assim se destaca. Se vc quiser saber, se a gente escalasse a seleção de hoje contra a de 70 muito provavelmente a Ronaldos e cia ensacariam Pelé, Gerson, Tostão, Jairzinho e Rivelino. Sabe porque? Melhor preparo físico, mais velocidade e mais marcação. Se vc não gosta disso, larga de ser corneteiro e vai torcer para a seleção de Masters.

 
Às qua jun 28, 10:00:00 PM , Blogger Jorge Cordeiro disse...

Desculpe, Ricardo, mas não há comparação possível entre times de épocas diferentes. Não funciona em esportes, história nem artes.

Tempos atrás, reprisaram os jogos da Copa de 1970 na íntegra e em vários deles o Brasil jogou modorrentamente, a seleçao canarinho não era espetacularmente superior às demais equipes. No jogo contra o Uruguai, por exemplo, o Pelé deu um chute medonho a gol, daqueles q a bola foi parar na bandeirinha de escanteio...

O fato é: o Brasil tem um elenco estelar, que poderia render muito mais nas mãos de um técnico mais competente. Ou mais audacioso. Wanderley Luxemburgo, por exemplo... Ou mesmo Felipão, que em 2002 fez o Brasil ser competitivo sem abdicar da arte de tocar a bola e fazer jogadas belíssimas, como as criadas contra a Inglaterra, Turquia e na final, contra a Alemanha.

Parreira já provou mais de uma vez que seus times são chatos. Foi assim em 94, está sendo agora, foi assim no Corinthians, no Fluminense e outras tantas equipes.

Simples assim.

Nenhuma outra equipe tem o elenco que o Brasil tem - tirando talvez a Argentina. Mas, then again, nenhuma outra equipe consegue fazer tão menos do que é capaz...

 
Às qui jun 29, 11:16:00 AM , Blogger Sérgio Ruiz disse...

Jorge, não é verdade, vc comete uma injustiça contra o Parreira. O Fluminense e o Corinthians eram times ofensivos e com momentos de bom futebol. No Brasil de 94, como sabemos, a safra era boa apenas no ataque -- no meio-campo, depois da amarelada do Raí, não tinha alternativa.

 
Às qui jun 29, 11:17:00 AM , Blogger Sérgio Ruiz disse...

Jorge, não é verdade, vc comete uma injustiça contra o Parreira. O Fluminense e o Corinthians eram times ofensivos e com momentos de bom futebol. No Brasil de 94, como sabemos, a safra era boa apenas no ataque -- no meio-campo, depois da amarelada do Raí, não tinha alternativa.

 
Às qui jun 29, 03:29:00 PM , Blogger Marcelo Tescaro disse...

Que é isso, Sérgião, em 94 já tinha o Marcelinho Carioca...

 
Às qui jun 29, 03:51:00 PM , Blogger Sérgio Ruiz disse...

Só não perdoo o Parreira por uma coisa: não ter convocado o Ezequiel em 94...

 

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial